1.
Seu Laerte perde-se em pensamentos irretratáveis, enquanto caminha devagar, mirando o chão. Carregando seu fardo, coberto de roupas e trejeitos velhos escorados em sua bengala. O vento traz de longe, do horizonte da calçada, um papel verde de bala de hortelã, que vem pingando e se arrastando na direção de Seu Laerte. Quando se torna visível e notável pela sua limitada e cansada vista, palavras involuntárias e implacáveis fazem-se existir a partir dessa boca velha e desbotada. Palavras sem verniz ou pudor, cuja ausência de testemunhas promove o inevitável questionamento de sua real existência, habitando uma lacuna distraidamente ignorada pela memória oblíqua e cansada do velho.
Palavras que existiram como feixes de luz sufocados por densas nuvens de esquecimento:
Merda, esqueci meu relógio!
2.
Seu Laerte senta-se exausto. Os passeios vespertinos que usualmente faz com sua esposa pela praça do bairro pareceriam menos cansativos se ele não fosse constantemente acometido pela forte sensação de a estar carregando nas costas. Dona Carmem, surda devido a um acidente numa fábrica de zíperes onde trabalhara e que invalidara sua audição, não pôde se manifestar quanto aos protestos do velho marido, pois durante sua pesada fala, ela estava a observar calmamente o coreto da praça, como se o afagasse candidamente com o olhar.
No entanto um frondoso pombo que há pouco pousara próximo ao casal, ouvira as poucas porém enfáticas palavras de Seu Laerte, pondo-se a resmungar cinicamente, fingindo pensar alto, fingindo estar falando sozinho:
Não se profere tais vitupérios ignominiosos para a dama de estirpe e vestido florido como esta, tais deselegâncias conferem veridicamente ao homem sua natureza de solidão.
Seu Laerte, homem de poucos porém enfáticas palavras, procurou não se incomodar com esse rato voador metido a esfinge, tentou, porém com reconhecido fracasso, fingir que nada ouvira. Tinha ciência de que desde sua longínqua juventude, nunca fora bom na arte de dissimular. De forma que sua insatisfação fora prontamente notada pelo pombo. Sua expressão parecia descrever em traços de carne, rugas e pelos brancos que desaprovara com todo o seu mau humor a intromissão da ave, que constrangido e perdido como quem presenteia um paraplégico com uma bicicleta, bateu suas asas em direção a qualquer outro canto ou qualquer outro velho. Chamando a atenção, no seu levantar vôo, da apaixonada contempladora de coretos, que recobrando a atenção ao passeio, decide prossegui-lo. Toma as mãos do esposo com um sorriso colorido que iluminava, radiante, seu semblante enevoado de róseas lembranças pueris.
Alguns passos adiante, Seu Laerte olha p’ra traz sob o ombro de Dona Carmem – tendo como moldura o braço e o limite lateral do corpo daquele vestido amarelo mostarda ornado de pequenas flores vinho e linhas da mesma cor – vislumbra a cena de um velho de colete cinza e bengala conversando deliciosamente com um frondoso pombo de pernas cor-de-rosa. Volta o olhar adiante e sorri. Sorri um sorriso de dentadura inflado de escárnio.
3. O Sonho
Seu Laerte costumava sonhar que de traz de um palanque professava sorridente para uma multidão de distraídas crianças sobre a austeridade do tempo e a tranqüilidade da infância, usando exemplos de sua própria experiência, pois como gostava de repetir em seus discursos idílicos, também já fora criança. E dessa forma direcionava a ladainha para as histórias e causos de sua inocente puerícia, quando corria descalço, pegava manga e goiaba do pé, mexia com os bois do pasto. Contava, com voz mais baixa, que era amigo de um beberrão chamado Geraldo que “diziam que em noite sem lua, na total escuridão do mato, virava uma criatura meio bicho, e saia atrás de mulheres solteiras com quem pudesse comungar casamento sob benção do tinhoso, o que acarretava a condenação da alma da pobre”. E se ria.
Contava histórias que ouvira quando moleque, e as reproduzia, a sua maneira, sem contar com a audiência – que o ignorava -, numa forma de mantê-las vivas, como a si próprio. Pois o que é esse velho homem, senão uma frágil edificação sobre uma semivida mal lembrada? Tijolos esparsos que constituem as paredes de uma memória imprecisa, esburacada, torta.
A esta altura não há mais sorriso no rosto deste orador, apenas uma face velha e atônita onde se desenham, mudas, angústias inimagináveis.
Suas mãos tremem sobre a madeira do palanque, como tremem na vida real. Um silêncio que só existe no interior de sua consciência toma todo o seu ser, cada molécula, cada pensamento é calado, subjugado. Como uma secreta, esse silêncio fede tudo a sua volta. Como que imbuído por ele, sente-se afogado, sufocado e expulso.
Seus sapatos de um outro tempo se viram para uma escada a seu lado. Depois de muitos degraus descidos enxerga uma porta entreaberta, que descobre dar p’ra rua. Vai andando pela calçada, retribuindo às árvores, pessoas, carros e canteiros a indiferença que lhe depositam. Quando vê passar, carregado pelo vento, um papelzinho verde resmunga algo incompreensível. Continua andando, sem saber das horas.