fiz em cacos os pratos, janelas, telas e vasos
fiz em cacos os traços do grafite e carvão
fiz um talho no chão,
um buraco esculpido
fiz do desejo ausência, e da ausência, oração
caiu um galho de mim
nesse buraco maldito
era o meu coração

fiz em cacos os pratos, janelas, telas e vasos
fiz em cacos os traços do grafite e carvão
fiz um talho no chão,
um buraco esculpido
fiz do desejo ausência, e da ausência, oração
caiu um galho de mim
nesse buraco maldito
era o meu coração
tão farpadas minhas palavras
e de tão descuidado fazimento
de tão errado apanhamento
pras plantas de adorno que lavras
tão queimados são meus olhos
da brasa que te queima o chão
da renda que nos prende as mãos
desembaraçada em outro acolho
*
tão lindas suas unhas
ao me entrar no peito
a quebrar em lascas
o entrefeito dos dias
tão lindos seus lábios
molhados salgados
a verter em meu castigo
o enfado que causo
tão cheiroso teu sono
róseo quente
és tão tudo que eu amo
de pouco se atrair fugiu, casta
preenchida no acolho das coisas
unhas de cores,
pétalas de arestas escurecidas
olhar o que? a casca
poesiosa que é, assim
de tão triste fica bom, branda
queria guardar eu pintada
de lavores azuis,
em caixa fechada, a semente
sem distinção, sem luz
que tenho medo
e medo é assim
memória em ângulo de vertigem
bater e encolher ameno
sucumbir aos limites dos nervos
dos poros, das minhas folhas
de amante, azul e plácido
veneno
delicada, de olhar e deduzir a vóz
de recolher cada fiapo de amor todo
de amar de tudo
escorregadia, nebulosa
derradeira
pormenor, que entre os dentes contraria
embate
o que faria?
eu ou qualquer coisa
se desejasse
com esse quarto teu
de coração
que em janela encerra
fechado
que faria?
ensejo, que entre os lábios contraria
embate
ouve um
primeiro passo
cantar de folha seca
devir-pé
estreita o dedo
tal estranha
artimanha de aço
submersa, um banco
e um cavalo
de tão difícil respirar
entranha ou boca adentro
deixa-me traço
onde convir
da noite mais feliz
que se há de repetir
como uma nota só
que não é a mesma
nem outra deve ser
como uma valsa
como quem diz
primeiro passo
de ferrugem-cicatriz
que minguou
em dança de girar
a farfalhar o aço
como tapar o sol
com os olhos;
desabrocha em cabelo
a escorregar
sei que ireis deixar
quando me couber
subir sozinho
sei que ireis
que me deixaram na porta:
das nossas metades juntas,
o amor.
preta-nego-amor.
sonha comigo,
metade minha,
que te dou boa noite em um beijo-flor.
Marilena era da mais vermelha carne
que o cetim já ajudou transparecer
sob as nódoas de batom que acumulava
a carapaça madalênica, falena
que ri na madrugada e pelas horas
ululava,
a se fazer anoitecer
morava com Asturias e Novena
que choraram azeite de hibisco
que a menina lhes dissimulou
arrancando-lhes da vista
sob o risco da ferrugem
se descoloriu num pranto de pena
de dó de si mesma, desapegada
pequena
viram-na no manto de retalhos
de suas partes, trouxeram-na sua recolha
oferenda
Marilena, se alimentou de seus amantes
consumiu-lhas a paciência e a paz
Asturias e Novena
envelheceram em vigília
e a aranha, Marilena, na penumbra
recolheu a beleza como do galho
subtraiu-lhas dos lábios a cor
no busto de Asturias um talho
e enquanto agora uiva a rubra Marilena
ouve-se dentre portas a portas
de Novena, surda e feia, a cantilena
apraz-me hoje ser poesia
hoje que sou eu só
contigo
com teu eu sobrevido de mim
desse meu broto meu
de eu
da água
de azul jasmim
antes que o mundo acabe
vou lavar o chão comigo
e me espalhar de mim
que me dói em cada fibra
que eu não consigo
separar da nossa carne
e quero pintar carmim
o teu sorriso
no vão de todo azulejo
de onde te espero
uma espera sem remédio
e se o pai em favor de me deixar
não enlouquecer, hei de saber
que é só por hora, só por agora