Conto: Acasossienne #1.1

•Agosto 29, 2009 • 1 Comentário

Pombos são bons representantes do caos panício, quero dizer, o caos que como o pão, segundo a tradição cristã ocidental, caracteriza a rotina diária dos seres humanos. Devido ao seu número e semelhança, são habitualmente associados a confusão, que por sua vez entende-se, sob o manto escurecedor da nossa rasa inteligência, proximamente associada a incoerência dos fatos e acontecimentos que terminam por ser dos seres como órgãos, como itens essencialmente constituintes dessa edificação chamada indivíduo (se você acreditar como eu que ‘um’ ou ‘alguém’ ou ‘eu’ são assim como sua própria história; mais do que se vê em algum momento que acontece, que o que se vê nesse algum momento que acontece, trata-se de um espelho, um espelho voltado p’ra traz, no qual é possível, apenas, enxergar-se de costas), e que, por fim, chamamos de acaso.
De uma forma geral, um pombo é um pombo tanto quanto outro pombo é este primeiro, mesmo enquanto é ele mesmo e ainda um terceiro. Não apenas por viverem em grupo ou por serem parecidos e quase sempre confundíveis a olhares nem tão distraídos assim, ou, na verdade, ao contrário, exatamente por isso. Diferentemente de cardumes de atum, borboletas e pipocas, no qual as células desse todo coletivo são (me desculpe a possível falta de modéstia) indiscerníveis. O fato de os pombos serem, como eu disse há pouco, quase sempre confundíveis, suscita ao homem, a aplicação a nós e sobre nós uma caracterização romantizada, a de anjos desse deus poderoso, ao lado desse monstro, inofensivo e seguro.

O velho ouve respeitoso e atento.

Ao notar um trocar de olhares confidente entre seu ouvinte e um outro senhor, acompanhado pela esposa e seu vestido, e este das flores que o ornavam; o pombo interrompe seu discurso. Um olhar escondido e tímido por debaixo do braço da senhora. Sentiu-se ameaçado pela complacência entre os dois; virou seu corpo p’ro outro lado da praça, o da igreja, dando costas a ambos, dando costas ao silêncio no qual o enclausuram. Um tenro sangrar de uma ferida abstrata tomou-lhe a estreita alma. Carecendo de meios de exteriorizar como nós, sem derramar discórdia ou lágrima, voa p’ra qualquer beiral, cheio de uma raiva e ciúmes, que conhece mas que não reconhece a fonte.

Conto: Acasossienne #2

•Agosto 29, 2009 • Deixe um comentário

Um significado autêntico e prático para a banalização e o clichê: uma porca ornada de pérolas que lha foram atiradas.

Atirar pérolas aos porcos não pode ser de todo mal: ao menos exercita-se a pontaria e/ou o arremesso, variando a maldade [a de quem arremessa].

Em Tuva [contou-me isso um estudioso do oud e da viola paraguaia], perdida entre o sul da Sibéria e o norte da Mongólia, as margens de um distante afluente do Linessei, encontra-se uma vila sazonal, que na maior parte do ano está dispersa. Durante uma primavera, um músico aposentado, no âmbito de desaparecer, decidiu procurar os rastros desses semi-nômades, p’ra aprender com seus passos. E em uma de suas buscas encontrara uma placa de madeira com um baixo relevo que constava da ilustração de um homem pastoreando javalis. Anos depois de abandonado o projeto e de voltar a Kyzyl, a capital, conheceu o sobrinho de um famoso etnólogo, que seguira os passos do tio pelo qual fora criado, e este lhe explicou que p’ra essa “tribo” peca-se ao atirar porcos sobre formações esféricas e reluzentes produzidas por moluscos.

Conto: Acasossienne #1

•Agosto 7, 2009 • 1 Comentário

1.

Seu Laerte perde-se em pensamentos irretratáveis, enquanto caminha devagar, mirando o chão. Carregando seu fardo, coberto de roupas e trejeitos velhos escorados em sua bengala. O vento traz de longe, do horizonte da calçada, um papel verde de bala de hortelã, que vem pingando e se arrastando na direção de Seu Laerte. Quando se torna visível e notável pela sua limitada e cansada vista, palavras involuntárias e implacáveis fazem-se existir a partir dessa boca velha e desbotada. Palavras sem verniz ou pudor, cuja ausência de testemunhas promove o inevitável questionamento de sua real existência, habitando uma lacuna distraidamente ignorada pela memória oblíqua e cansada do velho.
Palavras que existiram como feixes de luz sufocados por densas nuvens de esquecimento:
Merda, esqueci meu relógio!

2.

Seu Laerte senta-se exausto. Os passeios vespertinos que usualmente faz com sua esposa pela praça do bairro pareceriam menos cansativos se ele não fosse constantemente acometido pela forte sensação de a estar carregando nas costas. Dona Carmem, surda devido a um acidente numa fábrica de zíperes onde trabalhara e que invalidara sua audição, não pôde se manifestar quanto aos protestos do velho marido, pois durante sua pesada fala, ela estava a observar calmamente o coreto da praça, como se o afagasse candidamente com o olhar.
No entanto um frondoso pombo que há pouco pousara próximo ao casal, ouvira as poucas porém enfáticas palavras de Seu Laerte, pondo-se a resmungar cinicamente, fingindo pensar alto, fingindo estar falando sozinho:
Não se profere tais vitupérios ignominiosos para a dama de estirpe e vestido florido como esta, tais deselegâncias conferem veridicamente ao homem sua natureza de solidão.
Seu Laerte, homem de poucos porém enfáticas palavras, procurou não se incomodar com esse rato voador metido a esfinge, tentou, porém com reconhecido fracasso, fingir que nada ouvira. Tinha ciência de que desde sua longínqua juventude, nunca fora bom na arte de dissimular. De forma que sua insatisfação fora prontamente notada pelo pombo. Sua expressão parecia descrever em traços de carne, rugas e pelos brancos que desaprovara com todo o seu mau humor a intromissão da ave, que constrangido e perdido como quem presenteia um paraplégico com uma bicicleta, bateu suas asas em direção a qualquer outro canto ou qualquer outro velho. Chamando a atenção, no seu levantar vôo, da apaixonada contempladora de coretos, que recobrando a atenção ao passeio, decide prossegui-lo. Toma as mãos do esposo com um sorriso colorido que iluminava, radiante, seu semblante enevoado de róseas lembranças pueris.
Alguns passos adiante, Seu Laerte olha p’ra traz sob o ombro de Dona Carmem – tendo como moldura o braço e o limite lateral do corpo daquele vestido amarelo mostarda ornado de pequenas flores vinho e linhas da mesma cor – vislumbra a cena de um velho de colete cinza e bengala conversando deliciosamente com um frondoso pombo de pernas cor-de-rosa. Volta o olhar adiante e sorri. Sorri um sorriso de dentadura inflado de escárnio.

3. O Sonho

Seu Laerte costumava sonhar que de traz de um palanque professava sorridente para uma multidão de distraídas crianças sobre a austeridade do tempo e a tranqüilidade da infância, usando exemplos de sua própria experiência, pois como gostava de repetir em seus discursos idílicos, também já fora criança. E dessa forma direcionava a ladainha para as histórias e causos de sua inocente puerícia, quando corria descalço, pegava manga e goiaba do pé, mexia com os bois do pasto. Contava, com voz mais baixa, que era amigo de um beberrão chamado Geraldo que “diziam que em noite sem lua, na total escuridão do mato, virava uma criatura meio bicho, e saia atrás de mulheres solteiras com quem pudesse comungar casamento sob benção do tinhoso, o que acarretava a condenação da alma da pobre”. E se ria.
Contava histórias que ouvira quando moleque, e as reproduzia, a sua maneira, sem contar com a audiência – que o ignorava -, numa forma de mantê-las vivas, como a si próprio. Pois o que é esse velho homem, senão uma frágil edificação sobre uma semivida mal lembrada? Tijolos esparsos que constituem as paredes de uma memória imprecisa, esburacada, torta.
A esta altura não há mais sorriso no rosto deste orador, apenas uma face velha e atônita onde se desenham, mudas, angústias inimagináveis.
Suas mãos tremem sobre a madeira do palanque, como tremem na vida real. Um silêncio que só existe no interior de sua consciência toma todo o seu ser, cada molécula, cada pensamento é calado, subjugado. Como uma secreta, esse silêncio fede tudo a sua volta. Como que imbuído por ele, sente-se afogado, sufocado e expulso.
Seus sapatos de um outro tempo se viram para uma escada a seu lado. Depois de muitos degraus descidos enxerga uma porta entreaberta, que descobre dar p’ra rua. Vai andando pela calçada, retribuindo às árvores, pessoas, carros e canteiros a indiferença que lhe depositam. Quando vê passar, carregado pelo vento, um papelzinho verde resmunga algo incompreensível. Continua andando, sem saber das horas.

Leninade!

•Julho 28, 2009 • 1 Comentário

Esse é aparentemente o comercial oficial.

E esse, um comercial também. Com a participação de uma celebriadade lovecraftiana [nonsence].

Legendas:
Lenin bebeu, Lenin bebe, Lenin beberá. Leninade – Bebida dos Líderes
Beba, Cthulhu!
Leninade – Bebida dos Líderes
Leninade – Se levantará mesmo morto. [Will Raise Even Dead ]
(Even Cthulhu Likes Leninade!).
Leninade – Bebida dos destruidores de Lixo.

Leninade á uma bebida de origem estadunidense desenvolvida por ISSO, que eu não sei se é uma empresa de verdade. Promove-se através de frases como: “Get Hammered & Sickled”, “A Taste Worth Standing in Line For”, “With Georgia On My Mind,” “Drink Comrade! Drink! It’s This or the Gulag!,” ou “Surprisingly Satisfying Soviet Refreshment”.

Mas o mais engraçado (ou deprimente), é isso: um ushanka com com uma foice, um martelo e os nomes de Obama e de seu vice, provavelmnete lançado durante a candidatura deste.

Sem mais… boa noite.

borges

•Junho 28, 2009 • 1 Comentário

“Yo descreo de la política no de la ética. Nunca la política intervino en mi obra literaria, aunque no dudo que este tipo de creencias puedan engrandecer una obra. Vean, si no, a Whitman, que creyó en la democracia y así pudo escribir Leaves of Grass, o a Neruda, a quien el comunismo convirtió en un gran poeta épico… Yo nunca he pertenecido a ningún partido, ni soy el representante de ningún gobierno…Yo creo en el Individuo, descreo del Estado. Quizás yo no sea más que un pacífico y silencioso anarquista que sueña con la desaparición de los gobiernos. La idea de un máximo de Individuo y de un mínimo de Estado es lo que desearía hoy…”

Borges e a Política
oriundo do wikipédia; em resposta a [isso]. Que contém mais algumas barbaridades como isso: “[...] rejeitar a montagem de ‘Pequenos Burgueses’, já que Máximo Gorki patrocinou com seu prestígio a tirania na União Soviética.”

Bons vômitos (Y); me referindo à Folha, se você tiver estômago p’ra ler.
PS: É p’ra isso que eles querem (/precisam de) diploma?

Artaud & Van gogh, Suicidados pela Sociedade

•Maio 30, 2009 • Deixe um comentário

“Diante da lucidez ativa de van Gogh, a psiquiatria nada mais é que um antro de gorilas obcecados e perseguidos que só dispõem de uma ridícula terminologia para aplacar os mais espantosos estados de angústia e asfixia humana,
uma terminologia digna dos seus cérebros tarados.
Com efeito, não existe psiquiatra que não seja um erotômano declarado.
E não creio em exceções à regra da inveterada erotomania dos psiquiatras. [...]“

Artaud

precisava registrar isso, de alguma forma

Cap 4 x Soc 6 \m/

•Maio 30, 2009 • Deixe um comentário

Estava eu a vagar inutilmente por coisas e sites inúteis, quando me deparo com isso. Eu juro que não estava procurando nada relacionado a socialismo (concordo que seja suspeito pois é a esse tema dedicado o post anterior), estava até tentando dar uma escapada disso tudo: ouvindo música, shuffle, quando começa Violent Revolution, e e sou tomado por uma insuprimível curiosidade sobre o que estava a acontecer por aí, no metal, com a galera old, antiga e tal. E foi nessa vibe que eu procurei pelo site do Kreator. Comecei estranhando (e confesso, temendo), a existência de um tópico com o propósito de abrigar discussões políticas em um fórum do Kreator (apesar de que, enfim, fora no caso do Ministry (6), um site do Kreator seria realmente o mais adequado para tal atividade). Ao adentrar ao tópico, um subtópico: Capitalism x Socialism; penso eu: fodeeu, vou ler e passar mal. E claro que não adianta dizer “é só não entrar”…mas sabemos, ninguém resiste a essas barbáries: quem não pára p’ra ver as merdas que o RR “Devil” Soares fala enquanto passa os canais (aliás, já notaram que ele tá on na tv quase todas as 24 horas do dia? se Weber estivesse vivo diria: “Eis a [Ética 'Evangélica' e o espírito do capitalismo]” haha)? Tá, enfim, entrei, e não é que tomo uma surpreendente surpresa inesperada? Pois é, Socialism pwning the devil ‘cap’, apesar da desinformação habitual, de ambos os lados, foi muito animador em relação a visão decadente que eu tinha do metal, principalmente nos últimos tempos.

Comunicado UFSCar / Informe da Reitoria

•Maio 6, 2009 • Deixe um comentário

Trabalhadores rurais invadem área no campus da UFSCar

A Reitoria da UFSCar informa à comunidade universitária que, na madrugada do dia 1º de maio, área no campus São Carlos foi invadida por um grupo de cerca de 50 pessoas que se identificam como trabalhadores rurais reivindicando terra para plantio de alimentos. No próprio dia 1º, o Prefeito Universitário, Rogério Fortunato, esteve no local verificando a situação, informando aos participantes do movimento que a área pertence à Universidade e solicitando a retirada, o que não aconteceu até o dia de hoje. Portanto, a Reitoria informa que já foram tomadas as providências para pedido de reintegração de posse junto à Justiça.

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Informativo da Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade Federal de São
recebido pelo me_ufscar

fácula

•Abril 29, 2009 • Deixe um comentário

Às margens dos dedos
cheiro de alma pura
que as rendas de diana
suspiram e declamam
no farfalhar das notas doces.

parece que o velho hábito voltou…

Ditabranda

•Abril 29, 2009 • 2 Comentários

Polêmico artigo do digníssimo professor Villa…