Sermão do abismo

•abril 30, 2017 • Deixe um comentário

de todas minhas castas certezas
o inferno é a mais clara
o mais infame palmo
diante a mais vermelha cara
visto que se não lhe é familiar
a textura das suas escamas de chumbo
a lhe esgarçar as costelas
e a ardência angular nos pés
de quem caminha nas pedras
a respiração monótona e fraca
do pulmão letargo
os nós
ranhuras
o frio

é que, em certeza vos digo
o que paira alheio, vazio
a este não cabe o canteiro
de serenas mulas estáticas
o vinho, o vinhedo, o sobreiro
a paralisia aristocrática
que sob togas de musas, batizaram
liberdade
seu calcificado adagiário
seu leite, o caroço
o fardo insustentável
essa maternidade

a deleitosa contemplação
da paz estéril, a calmaria
não são, entre as graças
os méritos
do cão que sobreviveu a tempestade
do enxurro empíreo de divinas calhas
são uma jaula no coração do covarde
o alimento das bestas tardias
os nós
ranhuras
o frio

aquele que não conhece da noite
suas baixas raízes
a umidade febril de seu colo
e de seu silêncio
de dentro
os nós, o frio

se não caminhou pelo seu ventre
não ouviu como se ouve
daqui

deus dedit
deus abstulit

vem

•janeiro 12, 2016 • Deixe um comentário

toma os dias nas mãos
estes, de barro, de argila que são
dobra-os em copos, asas, anéis
desenha-te em raízes teus pés

e vem

la sonrisa

•janeiro 3, 2016 • Deixe um comentário

conheci um pássaro
de anunciação
de desenhos, arabescos
florescida de adornos

me ensinou que certezas redundam

me ensinou
que se sorri o que não cabe nos olhos
e se chora o que os lábios retém

soneto

•março 24, 2014 • Deixe um comentário

se não a vida o próprio deus engano
se não são paulo sem cortinas
suspensas por cortes de concreto e corpo
se não me engano
notas e dentes plurais
num silêncio mutante
refrões
se não me engano

se não o último e desluzido cinza
da samambaia pelo vitrô
uma nuvem que não se preocupa
em parecer senão
cinza algum
se não me engano
foi sua mão no batente
um chapéu, um gato

uma janta toalha
da cor da poltrona
se não me engano
um sépia carcomido

se a vida não sou eu não conseguir parar
de olhar a insônia toda em você meiga
canetinha cor de antônia
cor de alicate ou porcelana

se o cigarro pede o próximo
por onde anda?
errando todo santo dia
se não me engano

pano e pó

•janeiro 27, 2013 • Deixe um comentário

me sobro torto e espalhado em dobras
meus lençóis de pano e pó
me atrito em suas escamas
e eis a chama desejada
que revolve os dedos e para
encalha num regato de nós

na véspera do acaso adivinhado existe a cama
tropeço
e aqueles punhados de dó
e de sorrisos, no cinzeiro
que de não em não
recolhem as horas de um dia inteiro

mas nada disso há que não seja eu
e eu só

monumento infante

•agosto 3, 2011 • Deixe um comentário

fiz em cacos os pratos, janelas, telas e vasos
fiz em cacos os traços do grafite e carvão
fiz um talho no chão,
um buraco esculpido

fiz do desejo ausência, e da ausência, oração

caiu um galho de mim
nesse buraco maldito
era o meu coração

tanto

•julho 16, 2011 • 1 Comentário

tão farpadas minhas palavras
e de tão descuidado fazimento
de tão errado apanhamento
pras plantas de adorno que lavras

tão queimados são meus olhos
da brasa que te queima o chão
da renda que nos prende as mãos
desembaraçada em outro acolho

*

tão lindas suas unhas
ao me entrar no peito
a quebrar em lascas
o entrefeito dos dias

tão lindos seus lábios
molhados salgados
a verter em meu castigo
o enfado que causo

tão cheiroso teu sono
róseo quente

és tão tudo que eu amo